Blog Clara Nunes

13 agosto 2012

Jornal Estado de Minas - Cobertura completa da inauguração do Memorial Clara Nunes


Casa de ClaraMemorial inaugurado sábado na cidade natal da cantora abriga acervo com mais de 6 mil itens catalogados que contam a história da artista que conquistou o Brasil


Ailton Magioli
Publicação: 13/08/2012 04:00

Exposição que inaugura o Memorial Clara Nunes reúne roupas e acessórios que caracterizavam o estilo da cantora (Fotos: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Exposição que inaugura o Memorial Clara Nunes reúne roupas e acessórios que caracterizavam o estilo da cantora


Caetanópolis –“Dinha, vou pedir a você que guarde esta radiola bem guardada, porque quem sabe um dia eu ganhe um museu”, disse Clara Nunes à irmã, Maria Gonçalves da Silva, a Mariquita, hoje com 81 anos. A cantora, que completaria ontem 70 anos, morreu ainda jovem, em 1983, mas sempre se preocupou em preservar a memória de sua carreira artística. Sua previsão finalmente se realizou, sábado, com a inauguração do Memorial Clara Nunes em Caetanópolis, cidade natal da Guerreira, a 100 quilômetros de Belo Horizonte. Para Mariquita, a preocupação agora é com a manutenção do espaço, criado com o apoio público e da iniciativa privada.

A radiola, com direito aos pés palito, característicos dos anos 1960, foi prêmio do concurso A Voz de Ouro ABC, no qual a candidata mineira conquistou o terceiro lugar. Ela é apenas um dos mais de 6 mil itens catalogados por Marlon Silva, curador da exposição retrospectiva da carreira da cantora, em cartaz no Memorial Clara Nunes. “Se não for o maior acervo pessoal, com certeza é um dos maiores de que se tem notícia”, revela o mestre em história pelo Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafayete, que montou o memorial ao lado da professora e também historiadora Sílvia Maria Jardim Brügger.

Debruçada desde 2002 sobre o projeto de pesquisa de pós-doutorado “O canto do Brasil mestiço – Clara Nunes e o popular na cultura brasileira”, a professora da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) começou a identificar, acondicionar e a digitalizar as imagens do acervo da cantora, até então guardado em uma sala da Creche Clara Nunes/Grupo Espírita Paulo de Tarso, mantida em Caetanópolis por dona Mariquita. “Até o momento, já catalogamos mais de 6 mil objetos, fora o que ainda há para ser registrado no acervo dela”, contabiliza Marlon Silva, que, para a inauguração, preocupou-se em mostrar apenas um panorama da carreira consagrada da artista.

Natural do antigo distrito de Cedro, de Paraopeba, que viria a se tornar o município de Caetanópolis, Clara Francisca Gonçalves foi uma das maiores estrelas da MPB entre as décadas de 1960 e 1980, depois de trajetória de muita luta. De operária da Cedro Cachoeira, de Caetanópolis, à Companhia. Renascença Industrial, de Belo Horizonte, até a glória no Rio de Janeiro, Clara Nunes enfrentou dificuldades e preconceitos, vencendo tudo com garra e determinação.

“Ela conseguiu difundir uma obra que perpassa tempos históricos e dialoga com as raízes mais profundas da cultura brasileira”, detecta Paulo Henrique Caetano, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UFSJ. “Trata-se de uma obra de caráter ao mesmo tempo marcadamente local e universal”, acrescenta o pró-reitor, admitindo que a cantora é tudo que uma região precisa para se reconhecer e se perceber como protagonista de uma história.

A secretária municipal de Cultura de Caetanópolis, Marilene de Fátima Araújo, vê a inauguração do Memorial Clara Nunes como o segundo acontecimento mais importante da cidade, de 11 mil habitantes. “É a segunda emancipação de Caetanópolis, que se tornou município há 58 anos”, comemora ela, de olho no desenvolvimento econômico que o memorial da cantora poderá atrair por meio do turismo cultural.

Festival 


Além da recém-inaugurada instituição, que integra o Instituto Clara Nunes, comandado por dona Mariquita, o município abriga a Casa de Cultura Clara Nunes e o Festival Clara Nunes, que está sendo realizado até o dia 19, atraindo a atenção de gente como a carioca Eliane Lorenzo, que preside o Fã-Clube Oficial Clara Nunes (www.faclubeoficialclaranunes.blogspot.com). “Sonhamos com o memorial desde a partida de Clara”, diz Eliane, que vê na criação do espaço a oportunidade para eternizar a obra da cantora.

Acompanhada de cerca de 20 admiradores da artista, a presidente do fã-clube chegou à cidade mineira no fim de semana para comemorar a realização do sonho da própria cantora e de sua irmã Mariquita, além da imensidão de fãs espalhados pelo país. “Ao mesmo tempo que me sinto realizada pelo fim de uma espera de 29 anos, estou insegura. Afinal, precisamos dar continuidade à obra de Clara”, diz dona Mariquita, preocupada com o avanço da própria idade.

Além da amiga Sílvia Sales da Silveira, que guardou parte do acervo da cantora em sua fazenda por um tempo, a irmã da cantora se diz agradecida à colaboração da UFSJ e do Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafayete na montagem do Memorial Clara Nunes. O acervo, que exibe preciosidades da cantora, foi doado pelo marido de Clara Nunes, o compositor Paulo César Pinheiro, que, em 1984, encaminhou-o a dona Mariquita, para que fosse reunido em um único espaço.

Dona Mariquita, irmã de Clara, se preocupa agora com a manutenção do espaço (Fotos: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Dona Mariquita, irmã de Clara, se preocupa agora com a manutenção do espaço


Música, amizade e religião


“Clara era a cabeça de tudo desde a infância”. A constatação é da amiga Atahyres Fernandes Magalhães Catarina, a Sinhá, de 74 anos, que viu o talento da cantora sendo formatado. “Trabalhamos juntas no coral e no teatrinho da igreja, para o qual ela criava a coreografia dos bailados”, recorda a amiga de infância, para quem desde então Clara já tinha trejeitos de artista. “Apesar da passagem do tempo, a música de Clara ainda nos atinge”, diz a estudante Mariana Menezes, de 19 anos, que descobriu a artista por intermédio do pai, Romário Vicente Alves Ferreira, atual prefeito de Caetanópolis.

O radialista e produtor mineiro Adelzon Alves, responsável por levar Clara Nunes à marca de 1 milhão de discos vendidos, diz que, além do rico registro vocal, a cantora tinha carisma, boa vontade e humildade diante dos compositores. “Clara tem uma importância muito grande para a música brasileira, porque é de um tempo em que ser cantora era uma profissão amarga para a mulher”, recorda o também radialista Acir Antão.

Amigo pessoal da cantora, de quem celebrou o casamento com o compositor Paulo César Pinheiro, o padre João Emílio Souza, da Paróquia de São Bento, de Belo Horizonte, lembra que ela professava um misto de religiões, frequentando desde missas a ritos de umbanda e candomblé, além de sessões espíritas. “No dia em que pedi a ela dinheiro para a construção de um posto de saúde para atendimento a pessoas carentes do Bairro Sagrada Família, imediatamente ela se propôs a fazer o show, que arrecadou os 45 milhões de cruzeiros necessários para a obra”, recorda o religioso, orgulhoso da amiga.

MEMORIAL CLARA NUNES
Rua Fernando Lima, 250, Centro, Caetanópolis. Funcionamento: quinta e sexta-feira, das 14h às 18h; sábado e domingo, das 9h às 18h. Durante o Festival Clara Nunes, até o dia 19, o espaço estará funcionando diariamente, das 9h às 18h. Ingressos: R$ 5 (inteira) e R$ 2,50 (meia-entrada). Informações: (31) 3714-6702.
Marcas de uma vidaClara Nunes sempre teve o cuidado de documentar sua trajetória artística e deixou acervo pessoal bem organizado. Memorial reúne ainda objetos ligados à religiosidade da cantora



Ailton Magioli
Publicação: 13/08/2012 04:00

Inauguração do Memorial Clara Nunes, em Caetanópolis, atraiu moradores da cidade e fãs de outras regiões

 (Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press)
Inauguração do Memorial Clara Nunes, em Caetanópolis, atraiu moradores da cidade e fãs de outras regiões


A riqueza do acervo de Clara Nunes é tamanha que ele poderá atender as mais diferentes áreas de pesquisa. “Desde a história à música, passando pelo teatro, moda e a arte em seus mais diferentes campos”, constata o curador Marlon Silva. “Além da família, a própria Clara teve o cuidado de guardar tudo: de roupas a fotografias, passando por documentos, troféus, discos e outros itens”.

Já na recepção do memorial, o público poderá adquirir desde LPs (R$ 60 cada) a botons de alumínio com espelho (R$ 15), tapetes artesanais feitos na Creche Clara Nunes (o preço varia de acordo com a medida), selo (R$ 1 o par) da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em homenagem à artista e o livro O canto mestiço de Clara Nunes (R$ 30), organizado por Sílvia Maria Jardim Brügger.

No salão principal está montada a primeira exposição, com panorama da carreira da cantora, que vai do envolvimento de Clara com a religião (imagens católicas, budistas e umbandistas, além de atabaques como pedestais, guias, velas, livros kardecistas e objetos do candomblé) até a documentação dela (CPF, carteira de identidade, carteira de trabalho e certidões de nascimento e casamento, entre outros).

Peças de roupa (18 ao todo, entre vestidos usados por ela em shows como Brasileiro, profissão esperança, quimonos e fantasias e faixas), discos de ouro (sete) e acessórios, como as famosas tiaras de conchas também compõem o acervo, repleto de fotografias de Clara Nunes ao lado de artistas como Clementina de Jesus, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa e Marisa Gata Mansa.

Do nascimento (12/8/1942) à morte precoce (2/4/1983), em razão de problemas decorrentes de uma cirurgia de varizes, o curador apresenta um amplo painel de vida e obra da cantora, com a devida cronologia. Uma sala de projeção de audiovisuais, reserva técnica, administração e banheiros completam o memorial, cujo imóvel foi doado ao município pelo sobrinho da cantora, Sued Gonçalves da Silva. A casa onde a artista nasceu é objeto de campanha para se tornar espaço cultural.

Duas vezes rainha
Depois de assinar contrato com a Rádio Guarani e TV Itacolomi, dos Diários Associados, onde comandou o programa Clara Nunes apresenta (1963), a cantora foi eleita Rainha do Carnaval de Belo Horizonte (1964). Já no Rio, ela se torna Rainha dos Motoristas de Táxi da Guanabara (1973). O acervo exposto no memorial exibe as faixas.

Discos que marcaram época

Brasileiro: profissão esperança (1974)
Trilha do espetáculo de Paulo Pontes, em que a cantora dividiu o palco com o ator Paulo Gracindo. O repertório é basicamente de samba-canção. Entre os temas que fazem parte do disco estão composições de Dolores Duran, Tom Jobim, Fernando Lobo e Antônio Maria.

Alvorecer (1974)
Depois de alguns álbuns com estilo indefinido, em 1974 a cantora surpreende e vende 300 mil cópias de seu LP, graças ao sucesso do samba Conto de areia (Romildo/Toninho). Recorde para a época, rompeu com o tabu de que cantora não vendia discos e estimulou outras gravadoras a investirem em sambistas, como Alcione e Beth Carvalho. O disco tinha ainda Candeia, Dona Ivone Lara, João Nogueira e Caymmi, entre outros.

Canto das três raças (1976)
Já consagrada e com estilo que passaria a adotar até o fim da vida, marcado pela religiosidade africana, Clara Nunes gravou em 76 um de seus maiores sucessos, que dá nome ao disco, de autoria da dupla Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte. O trabalho mostrou ainda que a artista não era apenas sambista, cantando modinha, capoeira e marcha-rancho.

Guerreira (1978)
Tem como abertura a canção que se tornaria marca registrada da cantora, que dá nome ao disco, composição da dupla Paulo César Pinheiro e João Nogueira: “Saravá mineira guerreira que é filha de Ogum com Iansã”. O repertório tem canções que remetem ao clima interiorano, ao samba de morro e aos temas afrobrasileiros. Vendeu mais de 300 mil cópias.

Brasil mestiço (1980)
A faixa de abertura, Morena de Angola, de Chico Buarque, foi feita especialmente para o disco e se tornou um dos maiores sucessos da cantora. O repertório, além de várias canções de Paulo César Pinheiro, tem composições de Candeia, Nelson Cavaquinho, Luiz Bandeira e Elton Medeiros. Fenômeno de vendagem, superou 500 mil cópias.
Edição Jornal Estado de Minas 13 de agosto 2012

Fotos Clara Nunes -Folha de São Paulo

                                          A cantora mineira Clara Nunes, que completaria 70 anos
 Clara Nunes em um dos dois shows realizados em Abidjan, na Costa do Marfim, em 1976Clara Nunes em Abdijan, Costa do Marfim, em 1976, com o marido Paulo Cesar Pinheiro (à esq.), o técnico de som Genival Barros e João Nogueira (de costas)



Dolabella, Milton Moraes, Paulo Gracindo, Airton Rodrigues, Sargentelli, Jorge Dória, Marietta Severo, Cidinha Campos, Neuza Amaral, Thereza Sodré e Clara Nunes posam para foto com a apresentadora


                                                Clara Nunes em foto de 1983, no Rio
                                             Clara Nunes desfila no carnaval do Rio
 Os cantores e compositores Chico Buarque de Hollanda e João do Vale e a intérprete Clara Nunes no Forró Forrado, no Rio, em 1982
                                  Clara Nunes em registo de 1982, um ano antes de sua morte

Jornal O Globo


Eternamente Clara Nunes

Série de TV, caixa de CDs e relançamento de biografia abordam o mito nos 70 anos da cantora, que ainda tem material inédito



Ouça Clara cantando 'Quando o carnaval chegar' (Chico Buarque), que nunca gravaria, em ensaio para o show 'Sabiá, sabiô', projeto abortado em 1972

Ouça Clara cantando 'Quando o carnaval chegar' (Chico Buarque), que nunca gravaria, em ensaio para o show 'Sabiá, sabiô', projeto abortado em 1972WILTON MONTENEGRO

RIO - Assim como aconteceu com Elis Regina, a morte precoce de Clara Nunes reforçou a mitologia que já a envolvia enquanto brilhava em palcos e discos. Por ocasião dos 70 anos que ela completaria neste domingo — se não tivesse sido derrotada aos 39, em 1983, por uma malsucedida cirurgia de varizes —, o mito Clara será reverenciado em discos, shows, documentário, livro e no memorial que será inaugurado hoje em sua cidade natal, Caetanópolis, a 100 quilômetros de Belo Horizonte.
— As gerações mais novas vêm tomando conhecimento de Clara, há seguidores. Não vai ser em vão a beleza que ela deixou — confia o compositor Paulo César Pinheiro, que era casado com Clara e, nas últimas décadas, cedeu tudo o que possuía da cantora para iniciativas de preservação e divulgação do trabalho dela.
Quando a EMI lançou em 2004 uma caixa com todos os 16 discos (reunidos em oito CDs) gravados por Clara, Paulo César achou que a tiragem deveria ter sido maior — ele se lembra de 5 mil unidades e a gravadora fala em 2 mil. Fiava-se na histórica popularidade da cantora, a primeira no Brasil a ultrapassar a barreira das cem mil cópias vendidas de LPs e cujos números musicais eram atração frequente do “Fantástico”. A nova edição, que sairá até o fim do ano também com um nono CD de raridades, terá 2 mil exemplares, e os títulos não serão vendidos separadamente.
— Os discos da Clara devem estar sempre em catálogo. É um trabalho atemporal — diz o compositor.
A discografia poderá ficar maior do que o conjunto que vai de “A voz adorável de Clara Nunes” (1966) — um dos três da fase em que tentavam fazer dela uma intérprete apenas romântica, e não a grande sambista que se tornaria a partir de 1971 — a “Nação” (1982). O técnico de som Genival Barros tem em sua casa, em São Paulo, dois shows que gravou: “Sabor bem Brasil”, que rodou o país em 1974 e no qual Clara era mestre de cerimônias de Luiz Gonzaga, João Bosco, Waldir Azevedo, Altamiro Carilho e outros; e uma apresentação em Abidjan, na Costa do Marfim, em 1979, numa viagem de que também participou João Nogueira. Ele quer vender as fitas para a EMI, que ainda não concordou com os valores.
— Clara era fabulosa. E parecia uma gigante no palco. Gravei os shows porque sabia que eram importantes. Guardei para mim, mas, se uma gravadora quer lançá-los comercialmente, é natural que haja uma bonificação — comenta Genival Barros, de 72 anos, há 46 cuidando do som dos shows de Roberto Carlos.
Quem descobriu o material inédito foi Vagner Fernandes, autor da biografia “Clara Nunes — Guerreira da utopia”, lançada em 2007 e que, revisada e com alguns acréscimos, ganhará nova edição este ano. O jornalista também é o curador da caixa da EMI e o idealizador da série em cinco episódios “Clara guerreira”, que o Canal Brasil exibirá em novembro. Com direção de Darcy Burger, o documentário se baseia em 42 depoimentos (de Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Alcione, João Bosco etc.) e imagens de arquivo. Um sexto episódio será um show da baiana Mariene de Castro a ser gravado em setembro, no Teatro Tom Jobim, com participações de Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira. Ainda há o plano de se levar uma versão ao cinema em 2013.
— O reconhecimento da importância da Clara na música brasileira existe. O que eu ainda acho que não existe é um reconhecimento institucional, público, do Estado. No Rio, muito mais do que um mergulhão, deveria haver um espaço cultural com o seu nome — afirma Fernandes, referindo-se ao Mergulhão Clara Nunes, inaugurado em maio em Campinho, na Zona Norte.
Aos 81 anos, Maria Gonçalves realiza hoje um sonho acalentado há 28. Pouco após a morte da caçula de seus seis irmãos, Mariquita, como é conhecida na pequena Caetanópolis (10 mil habitantes), iniciou seu projeto de criar um memorial para guardar e expor discos, figurinos, troféus e um grande acervo de Clara. Após inúmeras negativas, ela convenceu um deputado estadual a apresentar uma emenda e garantir R$ 250 mil para a empreitada.
— Mesmo sem condições ideais, eu mostrava parte do acervo para quem vinha à cidade e perguntava por ela. Clara gostava daqui, passava todo Natal com a família — diz Mariquita, que criou Clara depois que ela perdeu pai (aos 2 anos) e mãe (aos 6); aos 15, a futura cantora se mudou para Belo Horizonte a fim de fugir de um escândalo: para proteger sua honra de moça de família, um irmão seu matou seu namorado.
Até o fim do ano, a EMI também pretende lançar em DVD um especial que Clara realizou para a TV Bandeirantes em 1973, com direção de Roberto de Oliveira. Ela é acompanhada pelo grupo Nosso Samba em músicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque e outros, além de sambas-enredo.
E o biógrafo da cantora ainda participará de shows-palestras sobre Clara. No Rio, o evento será com Rita Beneditto (ex-Ribeiro) na Miranda, no próximo dia 21
.

Folha de São Paulo



12/08/2012 - 05h06

Registros inéditos de Clara Nunes, que faria 70 anos, são revelados

"Sujou um pouco a cabeça na hora de rebobinar", explica Genival Barros, 72, com cotonete e acetona nas mãos, enquanto limpa seu aparelho de som dos anos 1970.LUCAS NOBILE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
MAYRA MALDJIAN
DE SÃO PAULO

Clara Nunes ganha memorial, mas box de discos sairá sem novidades
Ali, giram em fitas de rolo registros inéditos de Clara Francisca Gonçalves, a Clara Nunes, que completaria 70 anos hoje, se não tivesse sucumbido a uma cirurgia mal sucedida de varizes, em 1983.

Clara Nunes - 70 anos

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Wilton Montenegro/Arquivo Pessoal
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Clara Nunes faz reverência aos orixás em divulgação de seu LP "Brasil Mestiço", de 1980

O tesouro, guardado a sete chaves por Barros em seu escritório em São Bernardo do Campo, na Grande SP, é a gravação em áudio que fez de dois shows da cantora mineira na década de 1970 --um, na África, outro em São Paulo.
"Entre agosto e novembro, o Roberto Carlos dava uma parada, aí eu acompanhava a Clara", lembra Barros, que é técnico de som do Rei desde 1965. "O astral dela era impressionante. Ela crescia muito no palco, parecia que tinha dois metros de altura."
Nunca lançados, esses registros podem chegar às prateleiras pela EMI em um futuro ainda incerto, com a ajuda do jornalista Vagner Fernandes, biógrafo da cantora, que fez a ponte entre o sonoplasta e a gravadora.
"Eu liguei para o Genival há mais ou menos dois anos para consultá-lo sobre um registro de um show da Clara no Maksoud Plaza, em 1982. E ele disse: 'Pô, cara, não tenho, mas tem duas coisas aqui que vão te interessar. Você vai ficar maluco'", conta Fernandes.
"Começamos a conversar desde então. Levei essa história para o pessoal da EMI, e eles se interessaram em lançar os dois áudios em CD."
O técnico de som ainda não digitalizou as gravações. "Tenho medo de levar num estúdio e fazerem cópias."
"Fiquei sabendo do material. Preciso ver se a qualidade é boa mesmo. Não adianta lançar algo que não seja à altura [de Clara]", diz Paulo César Pinheiro, viúvo da cantora e herdeiro universal dos direitos sobre a obra dela.

OUÇA TRECHO DE SHOW INÉDITO DE CLARA NUNES
Cantora interpreta "Pau de Arara", do Gonzagão, no Sabor Bem Brasil, em 1978
RARIDADES

Técnico revela inéditas de Clara Nunes

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Ze Carlos Barretta/Folhapress
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Genival Barros apresenta os registros inéditos de Clara Nunes em seu escritório, em São Bernardo do Campo (SP)
Entre as novidades está o registro de um show da "Guerreira" em 1979, em Abidjan, Costa do Marfim.
Na ocasião, Clara viajou à África com Paulo César Pinheiro, João Nogueira e sua banda, para dois shows.
No início da apresentação, músicos locais fazem a ponte entre música africana e brasileira, convidando Clara ao palco para mostrar seu repertório essencialmente fincado no samba naquele momento de sua carreira.
"Há poucos registros ao vivo de Clara na segunda metade da década de 1970", ressalta Vagner sobre a importância do material.
Temas como "Na Linha do Mar", "Coisa da Antiga", "As Forças da Natureza" e um pot-pourri com "Domingo no Parque", "Disparada" e "Ponteio" compõem o repertório.
O outro registro, com ótima qualidade de áudio, foi feito em 21 de outubro de 1978, no Anhembi, em São Paulo. O show fazia parte do projeto "Sabor Bem Brasil", que rodou o país com Clara cantando e atuando como mestre de cerimônias.
No encontro, ela divide o palco com Luiz Gonzaga, João Bosco, Waldir Azevedo e Altamiro Carrilho e Caçulinha.
As performances incluem "Lamento" (com Altamiro), "Brasileirinho" e "Pedacinhos do Céu" (com Waldir), "Guerreira" e "Juízo Final".
"Pau de Arara", "Asa Branca", "Assum Preto" (com Gonzagão), "Incompatibilidade de Gênios", "De Frente pro Crime", "Kid Cavaquinho" e "O Mestre-Sala dos Mares" (com João Bosco) são destaques.








Jornal Estado de Minas


Memorial dedicado a Clara Nunes celebra história da artista com mais de 6 mil itens  

Espaço reúne acervo da cantora em Caetanópolis, sua cidade natal a 100 quilômetros de Belo Horizonte

Fotos: Gladyston Rodrigues/EM/D. A Press

A radiola, com direito aos pés palito, característicos dos anos 1960, foi prêmio do concurso A Voz de Ouro ABC, no qual a candidata mineira conquistou o terceiro lugar. Ela é apenas um dos mais de 6 mil itens catalogados por Marlon Silva, curador da exposição retrospectiva da carreira da cantora, em cartaz no Memorial Clara Nunes. “Se não for o maior acervo pessoal, com certeza é um dos maiores de que se tem notícia”, revela o mestre em história pelo Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafayete, que montou o memorial ao lado da professora e também historiadora Sílvia Maria Jardim Brügger.

Debruçada desde 2002 sobre o projeto de pesquisa de pós-doutorado “O canto do Brasil mestiço – Clara Nunes e o popular na cultura brasileira”, a professora da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) começou a identificar, acondicionar e a digitalizar as imagens do acervo da cantora, até então guardado em uma sala da Creche Clara Nunes/Grupo Espírita Paulo de Tarso, mantida em Caetanópolis por dona Mariquita. “Até o momento, já catalogamos mais de 6 mil objetos, fora o que ainda há para ser registrado no acervo dela”, contabiliza Marlon Silva, que, para a inauguração, preocupou-se em mostrar apenas um panorama da carreira consagrada da artista.

Natural do antigo distrito de Cedro, de Paraopeba, que viria a se tornar o município de Caetanópolis, Clara Francisca Gonçalves foi uma das maiores estrelas da MPB entre as décadas de 1960 e 1980, depois de trajetória de muita luta. De operária da Cedro Cachoeira, de Caetanópolis, à Companhia Renascença Industrial, de Belo Horizonte, até a glória no Rio de Janeiro, Clara Nunes enfrentou dificuldades e preconceitos, vencendo tudo com garra e determinação. 

“Ela conseguiu difundir uma obra que perpassa tempos históricos e dialoga com as raízes mais profundas da cultura brasileira”, detecta Paulo Henrique Caetano, pró-reitor de Extensão e Assuntos Comunitários da UFSJ. “Trata-se de uma obra de caráter ao mesmo tempo marcadamente local e universal”, acrescenta o pró-reitor, admitindo que a cantora é tudo que uma região precisa para se reconhecer e se perceber como protagonista de uma história.

A secretária municipal de Cultura de Caetanópolis, Marilene de Fátima Araújo, vê a inauguração do Memorial Clara Nunes como o segundo acontecimento mais importante da cidade, de 11 mil habitantes. “É a segunda emancipação de Caetanópolis, que se tornou município há 58 anos”, comemora ela, de olho no desenvolvimento econômico que o memorial da cantora poderá atrair por meio do turismo cultural. 

Festival
Além da recém-inaugurada instituição, que integra o Instituto Clara Nunes, comandado por dona Mariquita, o município abriga a Casa de Cultura Clara Nunes e o Festival Clara Nunes, que está sendo realizado até o dia 19, atraindo a atenção de gente como a carioca Eliane Lorenzo, que preside o Fã-Clube Oficial Clara Nunes (www.faclubeoficialclaranunes.blogspot.com). “Sonhamos com o memorial desde a partida de Clara”, diz Eliane, que vê na criação do espaço a oportunidade para eternizar a obra da cantora. 

Acompanhada de cerca de 20 admiradores da artista, a presidente do fã-clube chegou à cidade mineira no fim de semana para comemorar a realização do sonho da própria cantora e de sua irmã Mariquita, além da imensidão de fãs espalhados pelo país. “Ao mesmo tempo que me sinto realizada pelo fim de uma espera de 29 anos, estou insegura. Afinal, precisamos dar continuidade à obra de Clara”, diz dona Mariquita, preocupada com o avanço da própria idade. 

Além da amiga Sílvia Sales da Silveira, que guardou parte do acervo da cantora em sua fazenda por um tempo, a irmã da cantora se diz agradecida à colaboração da UFSJ e do Centro de Ensino Superior de Conselheiro Lafayete na montagem do Memorial Clara Nunes. O acervo, que exibe preciosidades da cantora, foi doado pelo marido de Clara Nunes, o compositor Paulo César Pinheiro, que, em 1984, encaminhou-o a dona Mariquita, para que fosse reunido em um único espaço.
Música, amizade e religião 
“Clara era a cabeça de tudo desde a infância”. A constatação é da amiga Atahyres Fernandes Magalhães Catarina, a Sinhá, de 74 anos, que viu o talento da cantora sendo formatado. “Trabalhamos juntas no coral e no teatrinho da igreja, para o qual ela criava a coreografia dos bailados”, recorda a amiga de infância, para quem desde então Clara já tinha trejeitos de artista. “Apesar da passagem do tempo, a música de Clara ainda nos atinge”, diz a estudante Mariana Menezes, de 19 anos, que descobriu a artista por intermédio do pai, Romário Vicente Alves Ferreira, atual prefeito de Caetanópolis.
O radialista e produtor mineiro Adelzon Alves, responsável por levar Clara Nunes à marca de 1 milhão de discos vendidos, diz que, além do rico registro vocal, a cantora tinha carisma, boa vontade e humildade diante dos compositores. “Clara tem uma importância muito grande para a música brasileira, porque é de um tempo em que ser cantora era uma profissão amarga para a mulher”, recorda o também radialista Acir Antão.
Amigo pessoal da cantora, de quem celebrou o casamento com o compositor Paulo César Pinheiro, o padre João Emílio Souza, da Paróquia de São Bento, de Belo Horizonte, lembra que ela professava um misto de religiões, frequentando desde missas a ritos de umbanda e candomblé, além de sessões espíritas. “No dia em que pedi a ela dinheiro para a construção de um posto de saúde para atendimentoa pessoas carentes do Bairro Sagrada Família, imediatamente ela se propôs a fazer o show, que arrecadou os 45 milhões de cruzeiros necessários para a obra”, recorda o religioso, orgulhoso da amiga. 
Marcas de uma vida 
A riqueza do acervo de Clara Nunes é tamanha que ele poderá atender as mais diferentes áreas de pesquisa. “Desde a história à música, passando pelo teatro, moda e a arte em seus mais diferentes campos”, constata o curador Marlon Silva. “Além da família, a própria Clara teve o cuidado de guardar tudo: de roupas a fotografias, passando por documentos, troféus, discos e outros itens”.

Já na recepção do memorial, o público poderá adquirir desde LPs (R$ 60 cada) a botons de alumínio com espelho (R$ 15), tapetes artesanais feitos na Creche Clara Nunes (o preço varia de acordo com a medida), selo (R$ 1 o par) da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos em homenagem à artista e o livro O canto mestiço de Clara Nunes (R$ 30), organizado por Sílvia Maria Jardim Brügger.

No salão principal está montada a primeira exposição, com panorama da carreira da cantora, que vai do envolvimento de Clara com a religião (imagens católicas, budistas e umbandistas, além de atabaques como pedestais, guias, velas, livros kardecistas e objetos do candomblé) até a documentação dela (CPF, carteira de identidade, carteira de trabalho e certidões de nascimento e casamento, entre outros).

Peças de roupa (18 ao todo, entre vestidos usados por ela em shows como Brasileiro, profissão esperança, quimonos e fantasias e faixas), discos de ouro (sete) e acessórios, como as famosas tiaras de conchas também compõem o acervo, repleto de fotografias de Clara Nunes ao lado de artistas como Clementina de Jesus, Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa e Marisa Gata Mansa. 

Do nascimento (12/8/1942) à morte precoce (2/4/1983), em razão de problemas decorrentes de uma cirurgia de varizes, o curador apresenta um amplo painel de vida e obra da cantora, com a devida cronologia. Uma sala de projeção de audiovisuais, reserva técnica, administração e banheiros completam o memorial, cujo imóvel foi doado ao município pelo sobrinho da cantora, Sued Gonçalves da Silva. A casa onde a artista nasceu é objeto de campanha para se tornar espaço cultural.
Relembre alguns dos álbuns marcantes de Clara Nunes: 
Brasileiro: profissão esperança (1974)
Trilha do espetáculo de Paulo Pontes, em que a cantora dividiu o palco com o ator Paulo Gracindo. O repertório é basicamente de samba-canção. Entre os temas que fazem parte do disco estão composições de Dolores Duran, Tom Jobim, Fernando Lobo e Antônio Maria. 

Alvorecer (1974)
Depois de alguns álbuns com estilo indefinido, em 1974 a cantora surpreende e vende 300 mil cópias de seu LP, graças ao sucesso do samba Conto de areia (Romildo/Toninho). Recorde para a época, rompeu com o tabu de que cantora não vendia discos e estimulou outras gravadoras a investirem em sambistas, como Alcione e Beth Carvalho. O disco tinha ainda Candeia, Dona Ivone Lara, João Nogueira e Caymmi, entre outros.
Canto das três raças (1976)
Já consagrada e com estilo que passaria a adotar até o fim da vida, marcado pela religiosidade africana, Clara Nunes gravou em 76 um de seus maiores sucessos, que dá nome ao disco, de autoria da dupla Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte. O trabalho mostrou ainda que a artista não era apenas sambista, cantando modinha, capoeira e marcha-rancho.
Guerreira (1978)
Tem como abertura a canção que se tornaria marca registrada da cantora, que dá nome ao disco, composição da dupla Paulo César Pinheiro e João Nogueira: “Saravá mineira guerreira que é filha de Ogum com Iansã”. O repertório tem canções que remetem ao clima interiorano, ao samba de morro e aos temas afrobrasileiros. Vendeu mais de 300 mil cópias.

Brasil mestiço (1980)
A faixa de abertura, Morena de Angola, de Chico Buarque, foi feita especialmente para o disco e se tornou um dos maiores sucessos da cantora. O repertório, além de várias canções de Paulo César Pinheiro, tem composições de Candeia, Nelson Cavaquinho, Luiz Bandeira e Elton Medeiros. Fenômeno de vendagem, superou 500 mil cópias.  



MEMORIAL CLARA NUNES
Rua Fernando Lima, 250, Centro, Caetanópolis. Funcionamento: quinta e sexta-feira, das 14h às 18h; sábado e domingo, das 9h às 18h. Durante o Festival Clara Nunes, até o dia 19, o espaço estará funcionando diariamente, das 9h às 18h. Ingressos: R$ 5 (inteira) e R$ 2,50 (meia-entrada).
Informações: (31) 3714-6702. 

Jornal de Floripa

2/08/2012 às 08h42min - Atualizada em 12/08/2012 às 08h42min

Clara Nunes ganha memorial, mas box de discos sairá sem novidades

Muitos tributos a Clara Nunes acabaram perdendo o mês de seu aniversário.

A gravadora EMI, por exemplo, promete relançar, para o fim do ano, a discografia completa da intérprete. São oito CDs com os 16 discos da cantora e um com raridades tiradas de compactos.

A caixa deve trazer poucos retoques no áudio e no projeto gráfico original. No repertório, semnovidades: o material já saiu em 1997 e 2004.

"Teve uma mudança de fábrica aqui, e acabou atrasando", justifica Luiz Garcia, gerente de marketing da EMI.

A cidade natal de Clara, Caetanópolis (MG), foi mais pontual. O festival que leva o nome da cantora já começou. Hoje é a vez da Velha Guarda da Portela, escola de samba do coração da "Guerreira".

O tributo mais importante, porém, é a inauguração do Memorial Clara Nunes, que abrigará uma parte dos 6.000 itens de seu acervo pessoal, restaurados por especialistas da Universidade Federal de São João del-Rei.

Outros projetos estão saindo do papel. Vagner Fernandes, autor da biografia "Clara Nunes "" Guerreira da Utopia" (Ediouro, 2007), planeja um documentário, que vai ao ar no Canal Brasil, no mês de outubro.

"Muita gente me procurou, mas sem nada concreto", diz Paulo César Pinheiro. "O projeto mais interessante é um documentário que reúne apresentações da Clara e entrevistas dadas só por ela."

"É algo diferente. Não é alguém falando sobre ela. É uma pessoa que já morreu, mas que está viva ali", completa o compositor.
Registros inéditos de Clara Nunes, que faria 70 anos, são revelados

"Sujou um pouco a cabeça na hora de rebobinar", explica Genival Barros, 72, com cotonete e acetona nas mãos, enquanto limpa seu aparelho de som dos anos 1970.

Ali, giram em fitas de rolo registros inéditos de Clara Francisca Gonçalves, a Clara Nunes, que completaria 70 anos hoje, se não tivesse sucumbido a uma cirurgia mal sucedida de varizes, em 1983.

O tesouro, guardado a sete chaves por Barros em seu escritório em São Bernardo do Campo, na Grande SP, é a gravação em áudio que fez de dois shows da cantora mineira na década de 1970 --um, na África, outro em São Paulo.

"Entre agosto e novembro, o Roberto Carlos dava uma parada, aí eu acompanhava a Clara", lembra Barros, que é técnico de som do Rei desde 1965. "O astral dela era impressionante. Ela crescia muito no palco, parecia que tinha dois metros de altura."

Nunca lançados, esses registros podem chegar às prateleiras  pela EMI em um futuro ainda incerto, com a ajuda do jornalista Vagner Fernandes, biógrafo da cantora, que fez a ponte entre o sonoplasta e a gravadora.

"Eu liguei para o Genival há mais ou menos dois anos para consultá-lo sobre um registro de um show da Clara no Maksoud Plaza, em 1982. E ele disse: 'Pô, cara, não tenho, mas tem duas coisas aqui que vão teinteressar. Você vai ficar maluco'", conta Fernandes.

"Começamos a conversar desde então. Levei essa história para o pessoal da EMI, e eles se interessaramem lançar os dois áudios em CD."

O técnico de som ainda não digitalizou as gravações. "Tenho medo de levar num estúdio e fazerem cópias."

"Fiquei sabendo do material. Preciso ver se a qualidade é boa mesmo. Não adianta lançar algo que não seja à altura [de Clara]", diz Paulo César Pinheiro, viúvo da cantora e herdeiro universal dos direitos sobre a obra dela.



Em BH

Revista Época



Os 70 anos de Clara Nunes

 Se estivesse viva, Clara Nunes completaria 70 anos neste domingo. A “mineira guerreira”, como bem disse o verso escrito por Paulo César Pinheiro, que foi casado com Clara, nasceu na cidade de Paraopeba e começou a cantar em programas de calouros.
O sucesso aconteceu quando, em 1971, ela abandonou os boleros e músicas românticas e lançou o discoClara Nunes, que trouxe elementos de ritmos africanos, fruto de sua proximidade com as religiões africanas. Nascia a Clara sambista, a que foi amada por seu público.
Nos anos 70, Clara, Alcione e Beth Carvalho ficaram conhecidas como o “ABC do samba”. Em 1975, seu disco Claridade, que trazia músicas como “Mineira”, “Ê baiana”, “O mar serenou” e “Juízo Final”, vendeu 600 mil cópias e igualou Clara a Roberto Carlos, o grande vendedor de LPs na época.
Clara morreu no dia 2 de abril de 1983, aos 39 anos. Ficou em coma por quase um mês após sofrer um choque anafilático durante uma cirurgia de varizes. Durante o período em que esteve em coma, a clínica onde Clara estava internada, no Rio de Janeiro, quase foi invadida por populares. Os fãs queriam mais informações do que os boletins emitiam e faziam vigílias por sua recuperação. Uma “clara” demonstração do amor que eles tinham pela cantora.
Nem sempre lembrada como deveria, Clara Nunes vai receber algumas homenagens por seus 70 anos. Na próxima semana (dias 14,15 e 16 de agosto), a cantora Virgínia Rosa fará três shows em homenagem a Clara no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Eram dois, mas a grande procura por ingresso fez com que o espetáculo ganhasse mais um dia.
A gravadora EMI- que detém a maior parte das músicas gravadas pela cantora – promete relançar a caixa neste segundo semestre a caixa Clara, com oito CDs que reúnem as músicas de 16 Lps gravados pela cantora, mais um CD com raridades. A gravadora ainda tem em catálogo um DVD com musicais de Clara no programa Fantástico, da TV Globo.
Para quem quer se aprofundar mais na história da cantora, pode se debruçar na biografia Clara Nunes- Guerreira da Utopia, lançada pelo jornalista Vagner Fernandes há alguns anos. Ela também vai ganhar um memorial em sua cidade natal, Paraopeba.
Fica difícil escolher uma única música ou uma única apresentação de Clara para ilustrar esse post. Porém, me atrevo a selecionar a que está abaixo. Uma apresentação de Clara no Japão, um ano antes de sua morte. A prova que sua voz, seu samba e seu carisma eram universais.