Blog Clara Nunes

13 agosto 2012

Especial IG


Maior cantora de samba do Brasil, Clara Nunes completaria 70 anos neste domingo

Artista morreu em 1983; relembre a sua carreira em vídeos e fotos

Augusto Gomes , iG São Paulo 
Este ano, alguns dos nomes mais importantes da música brasileira completam 70 anos. Gilberto Gil eCaetano Veloso já chegaram lá. Até o final do ano, Milton Nascimento e Paulinho da Viola também viram septuagenários. A lista ainda teria mais uma integrante de peso, se ela não tivesse morrido precocemente aos 40 anos: a mineira Clara Nunes.
"A Voz Adorável de Clara Nunes" (1966). Foto: Reprodução
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Nascida em 12 de agosto de 1942 na pequena Caetanópolis, Clara foi uma das maiores cantoras do país. Morreu em abril de 1983, depois de passar 28 dias em coma na clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. O coma foi resultado de uma reação alérgica à anestesia recebida durante uma simples cirurgia para a retirada de varizes das pernas.
AE
Clara Nunes, em foto de 1981
Sua morte provocou uma comoção tão grande quanto à de Elis Regina, um ano antes. Clara, afinal, era uma das cantoras mais populares do Brasil. A partir do início dos anos 1970, fez fama cantando sambas. Discos como "Claridade" (1975), "Canto das Três Raças" (1976), "Guerreira" (1978) e "Brasil Mestiço" (1980) ultrapassaram a marca de 1 milhão de cópias vendidas.
Mas, para aderir ao samba, Clara teve que lutar. Nos anos 1960, quando começou sua carreira, ela cantava boleros e sambas-canções com arranjos antiquados. O samba foi entrando em seu repertório aos poucos, mais por insistência da cantora que por vontade de produtores e gravadoras. A teimosia deu resultado: em 1971, ela estourou em todo o Brasil com a música "Ê Baiana".
Durante o restante da década de 1970, Clara foi a maior sambista do Brasil - sua única rival era Beth Carvalho. Gravou canções de Cartola ("Alvorada no Morro"), Nelson Cavaquinho ("Juízo Final"), Candeia ("Conto de Areia"), Paulinho da Viola ("Coração Leviano"), João Nogueira ("Guerreira"), Dona Ivone Lara ("Alvorecer") e Chico Buarque ("Morena de Angola"), entre outros.
Em 1975, casou-se com o letrista Paulo César Pinheiro, que passou a fornecer várias músicas para o seu repertório. Entre elas, sucessos como "Portela na Avenida". A Portela, por sinal, era uma das paixões de Clara. Tanto que seu corpo foi velado na quadra da escola, diante de uma multidão de 50 mil pessoas. Clara também foi tema do enredo em dois carnavais, em 1984 e em 2012.
Sua morte deixou uma lacuna na música brasileira: uma artista que se dedicava a gêneros genuinamente brasileiros (além de sambas, gravou forrós, baiões e choros), sempre com grande sucesso popular, mas sem ceder a apelos fáceis. Além disso, era uma intérprete como poucas: vibrante sem ser exagerada, emotiva sem ser piegas, e com um faro raro para descobrir boas músicas.
Quase 30 anos após sua morte, a artista é lembrada em sua cidade natal. No sábado (11), foi inaugurado em Caetanópolis o Memorial Clara Nunes, com mais de seis mil peças preservadas pela família da cantora. A gravadora EMI também vai relançar, no segundo semestre, a caixa Clara, com nove CDs. O box reúne todos os 16 discos de Clara (dois em cada CD), junto com mais um CD de raridades.

Diário do Nordeste


MITO

Clara Nunes receberá homenagens

13.08.2012

Cantora, que teria feito 70 anos de idade, ontem, vai ganhar até o fim do ano uma série de lançamentos especiais


Assim como aconteceu com Elis Regina, a morte precoce de Clara Nunes reforçou a mitologia que já a envolvia enquanto brilhava em palcos e discos. Por ocasião dos 70 anos que ela teria completado ontem - se não tivesse sido derrotada aos 39, em 1983, por uma malsucedida cirurgia de varizes -, o mito Clara será reverenciado em discos, shows, documentário, livro e no memorial que foi inaugurado no último sábado em sua cidade natal, Caetanópolis, a 100 quilômetros de Belo Horizonte (MG).

Clara Nunes morreu aos 39 anos, durante uma cirurgia: "o reconhecimento da importância da Clara na música brasileira existe. O que acho que não existe é um reconhecimento institucional, público, do Estado", diz o escritor Vagner Fernandes

"As gerações mais novas vêm tomando conhecimento de Clara, há seguidores. Não vai ser em vão a beleza que ela deixou", confia o compositor Paulo César Pinheiro, que era casado com Clara e, nas últimas décadas, cedeu tudo o que possuía da cantora para iniciativas de preservação e divulgação do trabalho dela.

Quando a EMI lançou em 2004 uma caixa com todos os 16 discos (reunidos em oito CDs) gravados por Clara, Paulo César achou que a tiragem deveria ter sido maior - ele se lembra de 5 mil unidades e a gravadora fala em 2 mil. Fiava-se na histórica popularidade da cantora, a primeira no Brasil a ultrapassar a barreira das cem mil cópias vendidas de LPs e cujos números musicais eram atração frequente do "Fantástico". A nova edição, que sairá até o fim do ano também com um nono CD de raridades, terá 2 mil exemplares, e os títulos não serão vendidos separadamente. "Os discos da Clara devem estar sempre em catálogo. É um trabalho totalmente atemporal", diz o compositor.

A discografia poderá ficar maior do que o conjunto que vai de "A voz adorável de Clara Nunes" (1966) - um dos três da fase em que tentavam fazer dela uma intérprete apenas romântica, e não a grande sambista que se tornaria a partir de 1971 - a "Nação" (1982). O técnico de som Genival Barros tem em sua casa, em São Paulo, dois shows que gravou: "Sabor bem Brasil", que rodou o país em 1974 e no qual Clara era mestre de cerimônias de Luiz Gonzaga, João Bosco, Waldir Azevedo, Altamiro Carilho e outros; e uma apresentação em Abidjan, na Costa do Marfim, em 1979, numa viagem de que também participou João Nogueira. Ele quer vender as fitas para a EMI, que ainda não concordou com os valores.

"Clara era fabulosa. E parecia uma gigante no palco. Gravei os shows porque sabia que eram importantes. Guardei para mim, mas, se uma gravadora quer lançá-los comercialmente, é natural que haja uma bonificação", comenta Genival Barros, de 72 anos, há 46 cuidando do som dos shows do cantor Roberto Carlos.

Quem descobriu o material inédito foi Vagner Fernandes, autor da biografia "Clara Nunes - Guerreira da utopia", lançada em 2007 e que, revisada e com alguns acréscimos, ganhará nova edição este ano. O jornalista também é o curador da caixa da EMI e o idealizador da série em cinco episódios "Clara guerreira", que o Canal Brasil exibirá em novembro. Com direção de Darcy Burger, o documentário se baseia em 42 depoimentos (de Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Alcione, João Bosco etc.) e imagens de arquivo. Um sexto episódio será um show da baiana Mariene de Castro a ser gravado em setembro, no Teatro Tom Jobim, com participações de Zeca Pagodinho e Diogo Nogueira. Ainda há o plano de se levar uma versão ao cinema em 2013.

"O reconhecimento da importância da Clara na música brasileira existe. O que eu ainda acho que não existe é um reconhecimento institucional, público, do Estado. No Rio, muito mais do que um mergulhão, deveria haver um espaço cultural com o seu nome", afirma Fernandes, referindo-se ao Mergulhão Clara Nunes, inaugurado em maio em Campinho, na Zona Norte.

Aos 81 anos, Maria Gonçalves realiza hoje um sonho acalentado há 28. Pouco após a morte da caçula de seus seis irmãos, Mariquita, como é conhecida na pequena Caetanópolis (10 mil habitantes), iniciou seu projeto de criar um memorial para guardar e expor discos, figurinos, troféus e um grande acervo de Clara. Após inúmeras negativas, ela convenceu um deputado estadual a apresentar uma emenda e garantir R$ 250 mil para a empreitada.

"Mesmo sem condições ideais, eu mostrava parte do acervo para quem vinha à cidade e perguntava por ela. Clara gostava daqui, passava todo Natal com a família", diz Mariquita, que criou Clara depois que ela perdeu pai (aos 2 anos) e mãe (aos 6); aos 15, a futura cantora se mudou para Belo Horizonte a fim de fugir de um escândalo: para proteger sua honra de moça de família, um irmão seu matou seu namorado. Até o fim do ano, a EMI também pretende lançar em DVD um especial que Clara realizou para a TV Bandeirantes em 1973, com direção de Roberto de Oliveira. Ela é acompanhada pelo grupo Nosso Samba em músicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Buarque e outros, além de sambas-enredo.

E o biógrafo da cantora ainda participará de shows-palestras sobre Clara. No Rio, o evento será com Rita Beneditto (ex-Ribeiro) na Miranda, no próximo dia 21. Série de TV, caixa de CDs e relançamento de biografia abordam o mito nos 70 anos da cantora, que ainda tem material inédit
o

04 agosto 2012

Livro 'MPB - A história de um século'

                                                            Foto : acervo Cravo Albin

O Estado de S.Paulo
RIO DE JANEIRO - As origens da MPB, os principais compositores e intérpretes de 1890 a 1990, década a década, de Chiquinha Gonzaga a Marisa Monte, de Catulo da Paixão Cearense a Zezé Di Camargo e Luciano. Relançado semana passada, MPB - A História de Um Século (Editora Funarte, R$ 70) é um livrão de 528 páginas que serve de referência a quem quer entender os rumos dessa trajetória, e acompanhá-la em fotos.

Fonte: O Estado de São Paulo

03 agosto 2012

Claras




                                                 Trabalho gráfico de : Ananda Nahu 

02 agosto 2012

Matéria Revista Viver


CULTURA

Destino, ele existe? - Revista Viver Brasil - Assim é Viver


Clara Nunes para sempre

Fotos, reportagens, documentos, discos de ouro, santos, colares e vestidos imortalizam a cantora em memorial


Guerreira. Este poderia muito bem ser o sobrenome da família de Clara Francisca Gonçalves, a Clara Nunes (1942-1983). A começar pela história da irmã mais velha e madrinha da cantora, Maria Gonçalves da Silva, conhecida como dona Mariquita, hoje com 81 anos. Em 1948, ela, com 17 anos, e o primogênito José Pereira Gonçalves tiveram que assumir a criação dos irmãos, órfãos de pai e mãe. Dona Mariquita precisou ser emancipada para virar a mãe dos pequenos.
 
Família guerreira, que teve forças para seguir em frente, diante de tantas dificuldades. E agora, 29 anos depois da morte de Clara Nunes, dona Mariquita finalmente vai conseguir realizar um sonho: ver o acervo da irmã famosa, guardado por tanto tempo, ganhar um memorial. “Eu mesma limpava tudo, colocava para tomar sol, cuidava com muito amor”, revela. E não é qualquer museu: são mais de 6 mil peças que contam a história da cantora, que completaria 70 anos no dia 12 de agosto. Para conhecer de perto tanta riqueza, a reportagem da Viver Brasil passou um dia inteiro em Caetanópolis, onde Clara Nunes nasceu e viveu até os 16 anos.  
 
O Memorial Clara Nunes custou a sair do papel por falta de verba, mas a ideia existe desde que a intérprete ganhou, em 1960, a fase mineira do concurso A Voz de Ouro ABC e ficou em terceiro lugar na etapa nacional. A partir daí, a carreira deslanchou: ela assinou contrato com a Rádio Inconfidência, de Belo Horizonte, e chegou a ter, em 1963, um programa na TV Itacolomi. 
 
O prêmio do concurso foi uma vitrola, que Clara deu para a Dindinha (dona Mariquita) cuidar, caso um dia existisse museu com o nome da artista. E foi o que a irmã-mãe fez durante todos esses anos. Juntamente com a vitrola, foram cuidadosamente guardados vários outros materiais, muitos deles juntados pela própria Clara e pelo marido, Paulo César Pinheiro: fotografias, matérias de jornais e revistas, documentos pessoais, discos de ouro, santos, colares, vestidos, sapatos, bolsas, objetos de decoração... 
 
Ao todo, são 6.100 peças, catalogadas por uma equipe da Universidade Federal de São João del Rei. À frente do grupo, está a pós-doutora Silvia Maria Jardim Brügger  – autora do trabalho Canto do Brasil mestiço: Clara Nunes e o popular na cultura brasileira –, que é apaixonada pela artista desde a adolescência e tomou conhecimento da história da dona Mariquita. Desde 2002, Silvia e o marido, o professor e filósofo Josemir Nogueira Teixeira, viajam para Caetanópolis para catalogar o acervo. A partir de um projeto de extensão da universidade foi feita a restauração de peças, como santos, fotos e prêmios. “Não sabíamos o que era o acervo, os objetos, a quantidade. Tivemos que catalogar as peças, restaurar algumas, higienizar e acondicionar da forma mais próxima do ideal. Foi quando esbarramos na falta de espaço e começaram a surgir projetos (um sobrinho da cantora doou a casa ao Instituto Clara Nunes para abrigar o memorial). Agora, as coisas estão se concretizando”, afirma Silvia. 
Em 2005, o historiador Marlon de Souza Silva entrou para a equipe, começou a cuidar do acervo e, agora, é o curador. Ele explica que, como são muitos objetos, é impossível expô-los de uma única vez. Por isso, as mostras serão temporárias. A primeira delas, que será aberta ao público no dia 12 de agosto e ficará em cartaz por cerca de seis meses, traz a história da artista, desde o início da carreira até os últimos shows. “A vitrine com os objetos foi toda montada de trás para frente. São roupas que marcaram em determinados períodos, troféus, capas dos 16 discos, fotografias, lembranças de viagens. O espaço também terá sala audiovisual, com fotos e depoimentos, e som ambiente, com músicas perpassando toda a carreira da Clara.” 
 
No espaço, o visitante poderá ver de objetos emblemáticos, como a tiara de conchas, até os mais desconhecidos do público, como a bandeira de folia de reis, que era do pai de Clara, Manoel Pereira de Araújo. Segundo Silvia, foi a própria cantora quem se preocupou em resgatar a bandeira. “Ela tinha um valor afetivo pelo objeto e pelo universo da cultura popular.”
 
A pós-doutora acrescenta, ainda, que a exposição vai mostrar curiosidades, como roupas e músicas do início da carreira. Por exemplo, antes de ser conhecida, Clara Nunes cantava música romântica, como bolero. O gosto pela arte está no seio da família. O pai dela era considerado um exímio violonista. Irmãos participavam de atividades teatrais e musicais. “Ela nasce nesse universo artístico, tem uma vivência da música que também fazia parte da cidade. Essa experiência é cada vez mais intensa nela. O processo se consolida em Belo Horizonte e chega ao auge no Rio de Janeiro”, explica Josemir Teixeira. A paixão dele e da mulher pela cantora é tão grande, que a filha do casal recebeu o nome de Clara. “Foi mesmo uma homenagem. Nossos filhos ouvem Clara Nunes porque queremos que eles tenham cultura popular. Ela não é um acaso: é uma cantora que descobriu como vivenciar nossa brasilidade”.
 
Além do memorial, Caetanópolis vai abrigar também o Espaço Cultural Casa da Clara. A secretária de Cultura do município, Marilene Araújo, adianta que a casinha simples da rua Coronel Vítor Mascarenhas, onde a artista morou quando criança, será revitalizada e transformada em uma espécie de museu para contar a história da Clara na infância e adolescência. “O memorial tem o acervo da obra artística. Já o Espaço Cultural Casa da Clara vai ter o que antecede a isso: a família dela, a máquina de costura da dona Mariquita, em que foram feitos os primeiros vestidos da Clara, a reprodução dos móveis e as brincadeiras da época”, explica Marilene. O projeto, que vai custar cerca de 250 mil reais, aguarda verba do Fundo Estadual de Cultura.
Vicente Aurélio Aguiar: “Simplesmente me encantei pela Clara”
Vicente Aurélio Aguiar: “Simplesmente me encantei pela Clara”
Viagem ao passado
 
Não dá para falar da mineira Clara Nunes sem voltar ao passado. A cantora nasceu em 12 de agosto de 1942 em Caetanópolis – ex-Cedro, então pertencente ao município de Paraopeba –, a 96 quilômetros de Belo Horizonte. Caetanópolis é uma daquelas cidadezinhas do interior em que as pessoas se conhecem há tempos, se cumprimentam, se abraçam, tomam café com queijo minas na mesa da cozinha.
 
A irmã Mariquita, que criou a artista desde pequena, lembra que “Clara já nasceu cantando”, mas não pensava em ser famosa. “Ela era muito alegre e habilidosa. Adorava trabalhos manuais. Também gostava de estudar, mas teve que parar quando começou a trabalhar, aos 14 anos, assim como os irmãos.” Foi dona Mariquita quem fez os primeiros vestidos da caçula, na máquina antiga que continua guardada em um quartinho da casa. “Ela escolhia os modelos. Tinha muito bom gosto”, ressalta. Um deles foi usado pela irmã no primeiro show, no antigo prédio da Cohab, que abriga hoje a Casa de Cultura Clara Nunes. 
 
A aposentada Margarida Maria Pereira do Prado, hoje com 68 anos, foi contemporânea de Clara Nunes na Escola Municipal Coronel Caetano Mascarenhas, e fala da artista com emoção. Os olhos chegam a lacrimejar. As duas estiveram bem próximas na Cruzada Eucarística, um movimento católico que se iniciava logo depois da primeira comunhão. “Ela cantava no coral da Cruzada. Eu fazia questão de ficar bem perto para as pessoas acharem que eu que cantava daquele jeito tão lindo. Nas coroações, era uma beleza. A gente ficava encantada”, conta dona Margarida, lembrando da época em que tinha 7 anos de idade.
 
E as lembranças continuam a voar longe: “Em frente à casa da dona Mariquita tinha a trepadeira alamanda e a flor bonina. Dos botões da trepadeira, Clarinha fazia unhas postiças. A flor era amarelinha, e nem precisava pintar as unhas. Das boninas, fazia colares e tiaras, encaixando uma flor na outra. Clara tinha toda a criatividade do mundo.” Era assim, toda enfeitada, que a pequena Clara, com 9 anos, rodava a saia de chitão da irmã e saía cantando, contagiando todos. Uma das brincadeiras preferidas era o bailado, em que a cantora mirim se enfeitava e ensinava às amiguinhas trabalhos manuais, como colares, pulseiras e tiaras, e passos de dança. Ela sempre ficava no centro da roda, interpretando marchinhas de Carnaval e músicas de cantoras que estavam no auge na época, como Angela Maria.  
 
“Tive o privilégio de ver isso ao vivo, quando ela era criança, porque, quando ficou famosa mesmo, não tive oportunidade. Fui apenas a um show dela, no Palácio das Artes, em 1977, se não me engano. sClara me apresentou ao cantor João Bosco como uma amiga de infância. Ela sempre vinha à cidade para passar o Natal com a família e acompanhar as pastorinhas. Gostava de estar conosco, com a família e os amigos”, diz dona Margarida. O último encontro das duas foi em 1982, também na época de Natal. “Eu me lembro de uma manicure pintando as unhas da Clara para ela ir à Bahia, onde ia gravar com o grupo Filhos de Gandhi.”
Maria Aparecida e os pais:
Maria Aparecida e os pais: "Clara Nunes era a moça mais bonita, mas também muito simples"
Tanta formosura não passava despercebida. O irmão de Margarida, Vicente Aurélio Aguiar, 70 anos, confessa que teve amor platônico por Clara Nunes, de quem foi colega de sala no segundo ano primário. “Ela era simples, muito alegre, com um sorriso que não deixava de chamar atenção. Eu ficava na sala, olhando para ela, admirando. Simplesmente me encantei pela Clara, mas a gente não tinha uma interação. Só ficava mais perto dela quando íamos para o pátio cantar o Hino Nacional”, lembra o aposentado. 
 
 Avesso à religião, Aguiar só entrou para a Cruzada para ficar admirando a dona daquela beleza toda. E o padre acabou “dando uma forcinha”, já que criou o costume da reza, de segunda a sexta-feira, das 18 às 19 horas. “Depois da reza, tinha o footing. Os meninos ficavam na praça da igreja vendo as meninas andando de um lado para o outro. Eu ficava ali até 21 horas, esperando a Clara ir embora para casa.” 
 
O contato maior foi só na adolescência, quando um amigo começou a namorar a cantora. Um dia, Aguiar teve coragem e contou para a bela que havia sido apaixonado por ela. “Clara riu muito e me perguntou por que eu não havia lhe contado. Eu disse que não tive coragem, que sofria muito e que fiz até novena para ela olhar para mim.” O tempo passou, cada um seguiu seu rumo, casou, mas o senhorzinho nunca deixou de admirar a estrela. “Muitos anos depois, em 1974, eu estava no Rio de Janeiro, a trabalho, e vi que a Clara ia apresentar, no Canecão, o show Brasileiro, profissão esperança. Fui ao espetáculo e me emocionei muito. Tinha tomado umas cervejas e, depois do show, fui até o camarim. Foi o nosso reencontro de amigos. Nós nos abraçamos e choramos. Daí para frente, até a morte dela, nos encontrávamos no Natal, em Caetanópolis”, diz, emocionado. Tanta admiração está estampada em um pôster da cantora pendurado na sala do apartamento do aposentado. 
 
A família da funcionária pública Maria Aparecida Teixeira, 65 anos, também tem histórias para contar. O pai dela, Francisco Teixeira da Silva, 85, conheceu a família de Clara Nunes. Silva era amigo e colega de trabalho do pai da cantora. Os dois trabalhavam na tecelagem de Caetanópolis. Quando dava tempo, tocavam violão e faziam serenata. “Ele gostava de cantar, mas não tinha tempo. A gente trabalhava de sol a sol. Eu era carpinteiro, e ele, serrador”, lembra Silva. Maria Aparecida diz que acompanhava Clara cantando no grupo de pastorinhas e nos concursos de música realizados no município. “Ela cantava muito bem e chamava a atenção de todos na cidade. Depois que foi para Belo Horizonte, a gente a ouvia no programa de rádio. Tinha certeza de que ela ia fazer sucesso”, destaca Maria Aparecida.   
 
Apesar de não ter conhecido Clara Nunes viva, Fernando José Soares Mascarenhas, 30 anos, é uma enciclopédia ambulante da artista. “Passei a gostar da cantora em 1996, ao ver uma entrevista dela na TV Cultura. Comecei a estudar a história e a colecionar jornais e revistas com notícias sobre a Clara. Em 2004, ganhei de presente a sua discografia, de 1966 a 1982.”
 
De volta a Belo Horizonte, não poderia deixar de ouvir o depoimento do músico e compositor Jadir Ambrósio, 89 anos, autor do hino do Cruzeiro. Foi ele quem convenceu Clara Nunes a cantar, ainda adolescente, em rádios de BH. “Eu a vi cantando em uma festa da igreja do bairro Renascença. Quando ouvi aquela menina, eu falei: que voz é essa?. Vi que seria um fenômeno.” Seu Ambrósio diz que sempre escuta os discos da artista. E garante que a ouviu cantando, em sonho, uma música que ele fez recentemente: “Olha eu aqui de novo. Voltei porque senti muita falta do meu povo”.
Casa onde a cantora viveu e que será transformada no Espaço Cultural Casa da Clara
Casa onde a cantora viveu e que será transformada no Espaço Cultural Casa da Clara
Festival
 
Pelo sétimo ano consecutivo, Cae­ta­nópolis realiza o Festival Cultural Clara Nunes. Nesta edição, que acon­tece de 4 a 19 de agosto, na praça An­tonino Pinto Mascarenhas e na Casa de Cultura Clara Nunes, o público poderá ouvir atrações co­mo Elba Ramalho, Benito di Paula, Almir Sater, Velha Guarda da Portela, Magnatas do Samba, Samba de Comadre e Cida Mendes. Um dia é  dedicado à artista maior da cidade e ícone nacional.
 
O prefeito Romário Vicente Alves Ferreira afirma que o evento é responsável por trazer à tona a memória da Clara Nunes. “Desde criança, a gente ouvia falar da artista, mas não tinha noção do que significava ter uma conterrânea famosa. Quando me tornei prefeito, a então secretária de Cultura Adriana Andrade teve a ideia de fazer o festival para resgatar a memória da Clara. No último dia do primeiro festival, em 2006, pensei que o projeto poderia dar certo se houvesse investimento. Foi o que aconteceu, e o evento foi crescendo a cada ano. Agora, as pessoas daqui têm orgulho de falar que são da terra natal de Clara Nunes.”
 
O sucesso está estampado em números: enquanto a primeira edição reuniu cerca de 500 pessoas, a última contou com a presença de mais de 20 mil, de várias partes do país, pouco menos que o dobro da população de Caetanópolis, de 11 mil habitantes. “A cidade quase não comportou tanta gente. Agora, com o Memorial, queremos abrir uma porta para o turismo cultural”, diz o prefeito. Segundo ele, a proporção que o festival tomou no ano passado era prevista para ocorrer somente na 12ª edição.
 

7º Festival Cultural Clara Nunes

CASA CULTURAL CLARA NUNES
 
4 de agosto
20 horas: apresentação da peça teatral “Concessa Pendura e Cai“, com Cida Mendes
 
5 de agosto 
20 horas: Coral Vozes, sob a regência do maestro Valdomi Nascimento
 
6 de agosto 
20 horas: apresentação da peça teatral “Surpresa na TV”, com direção de Marcos Aurélio e Junia Gabriela
 
7 de agosto 
20 horas: Coral Juvenil Inhotim Encanto, sob a regência do maestro Daniel Andrade
 
8 de agosto 
20 horas: Mostra de Dança do Ventre, com a Cia. de Dança do Ventre Najma Laila
 
13 de agosto 
20 horas: Projeto Travessia, com “O Diário de Viagem”, direção de Josiane Camilo
 
14 de agosto 
20 horas: Oficina de Danças da Casa de Cultura Clara Nunes, com o coreógrafo Robson Bernardino
 
15 de agosto 
20 horas: 6ª Mostra de Música Instrumental, com pré-lançamento do CD “Brasilidade”, de Leandro Ruas
 
16 de agosto 
9 e 14 horas: Contação de História, com Tio Têto e sua turma
 
PRAÇA MATRIZ
 
5 de agosto
10 horas: Capoeira na Praça, com direção de Graduado Preto
 
9 de agosto 
20 horas: shows de Suellen Franco e Leandro Ruas, e Fernando Augusto
 
10 de agosto 
20 horas: Projeto Cordas & Cia – 100 Anos de Luiz Gonzaga
 
11 de agosto
19 horas: Shows de Márcio Guima, Magnatas do Samba, Benito di Paula e Banda Entretanto 
 
12 de agosto 
10 horas: Adelzon Alves – MPB de Raiz – Homenagem à Clara Nunes
19 horas: Shows de Rose Brant, Velha Guarda da Portela, participação especial Toninho Nascimento, Samba de Comadre
 
16 de agosto
20 horas: Shows de Marcos Bruzinga e Banda, Lígia Cabral e Banda
 
17 de agosto
19 horas: Cia. Lian Gong para Melhor Idade, Cia. de Dança do Ventre Najma Laila, Grupo Negras Raízes de Clara Cia. Batuque de Dança, Equipe Dança de Rua - Free Step, Cia Municipal de Dança de Paraopeba, Jongo da Serrinha, Banda Quorum 
 
18 de Agosto 
20 horas – Shows de Marcos Bruzinga e Leandro Ruas, Roda de Samba do Compadre Washington, Almir Sater, Banda K22 
 
19 de Agosto 
10h30 – Concerto Orquestra Jovem V&M do Brasil e Comunidade do Barreiro
13 horas – Show de Fabio Augusto
20 horas - Shows de Suellen Franco, Elba Ramalho e Banda Paranexo

VIDA E OBRA

  • 1942 Clara Nunes nasce em 12 de agosto, no distrito de Cedro (hoje Caetanópolis), então pertencente ao município de Paraopeba
  • 1958  Muda-se para BH e começa a cantar nas rádios
  • 1960  Ganha a fase mineira do concurso A Voz de Ouro ABC, cantando Serenata do Adeus
  • 1961  Fica em terceiro lugar na fase nacional do concurso, com a música  Só Deus
  • 1962  Ganha troféu Lady Crooner
  • 1963  Passa a ter programa próprio na TV Itacolomi
  • 1965  Com contrato com a gravadora Odeon, muda-se para o Rio de Janeiro
  • 1966  Grava o primeiro LP, A Voz Adorável de Clara Nunes
  • 1968  Lança o segundo LP, emplacando a música Você passa, eu acho graça, que dá título ao disco
  • 1971  Começa a gravar mais sambas e viaja para Angola
  • 1974  Início da venda de discos. Ganha Disco de Ouro, a partir deste ano, até o final da carreira (um por ano)
  • 1975  Clara se casa com o poeta e compositor Paulo César Pinheiro, que passa, a partir de 1976, a produzir seus discos. Ganha o Troféu Imprensa
  • 1976  Lança Canto das Três Raças
  • 1980  Grava a música Morena de Angola, do Chico Buarque
  • 1982  Lança Nação
  • 1983  No dia 2 de abril, Clara Nunes morre após ter ficado 28 dias internada, em estado de coma 
Fonte: Silvia Maria Jardim Brügger, no artigo O povo é tudo!: uma análise da carreira e da obra da cantora Clara Nunes, e historiador Marlon de Souza Silva

Programação do memorial

11 de agosto
16 horas: inauguração, com performance da Cia. Municipal de Dança de Paraopeba – Entre mares e areias, coreografia de Alan Keller
 
12 de agosto
Das 10 às 16 horas: exposição do acervo de Clara Nunes, aberto à visitação pública, com ingresso a preço popular
 
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01 agosto 2012

Especial Clara Nunes


Clara Nunes  13/08/2012 | 00h30

TV Brasil
  • Clara Nunes

    duas linhas, por mais paradoxais que pareçam, resumem a vida e a obra de Clara Nunes, do primeiro disco, A voz adorável de Clara Nunes, de 1966, em que ela cantava ...

A trajetória da cantora de todos os gêneros que estaria fazendo 70 anos
Clara Nunes
Mineira de Paraopeba, filha de violeiro cantador de Folia de Reis, o primeiro palco de Clara foi o altar da igreja católica, onde participava do coral. Estas duas linhas, por mais paradoxais que pareçam, resumem a vida e a obra de Clara Nunes, do primeiro disco, A voz adorável de Clara Nunes, de 1966, em que ela cantava boleros, à consagração como cantora de gêneros brasileiros e sua morte em 1983, aos 40 anos de idade.
O que sobressai na história de Clara, tanto quanto o talento de assinar vocalmente qualquer gênero musical, é o inevitável paralelo entre suas trajetórias artística e religiosa. A atração inicial pela música estrangeira, pouco a pouco vai cedendo lugar aos ritmos africanos herdados do pai, quando se muda para o Rio de Janeiro e faz a primeira viagem à África.
O casamento com o produtor Adelzon Alves cristaliza a imagem da cantora de Umbanda, na medida em que ele trabalha o repertório e divulga sua ligação com as matrizes da música afro-brasileira. Esta é a grande fase da carreira de Clara Nunes em que ela é reconhecida como a artista que traz para o disco e leva para o palco a estética do povo-de-Santo. Nas viagens pelo Brasil e exterior, Clara Nunes é garantia de bilheteria, seja nas casas de shows ou nos teatros. É a primeira cantora da sua época a vender mais de quatro milhões de LPs e acumular 18 discos de ouro.
A partir de 1975, quando Paulo César Pinheiro passa a cuidar de sua carreira, Clara Nunes muda radicalmente a estética de seu trabalho. O olhar centrado na africanidade dos terreiros é ampliado para o universo do samba. Volta-se, também, para a religiosidade que havia deixado na terra natal. Daí até a morte acidental, tudo na vida de Clara se transforma em mito.
Neste Musicograma, a trajetória entre o sagrado e o profano é evidenciada em registros feitos no Estúdio 3 da TVE, nos anos 70, e nos clipes gravados no Parque da Cidade, Rio de Janeiro, para o programa É preciso cantar, com direção de Luiz Carlos Pires, também diretor do Musicograma, e fotografia de José Guerra, o lendário “Guerrinha”. 

Horário(s) do episódio

Nacional

11/08/12 às 21:30
13/08/12 às 00:30


http://tvbrasil.ebc.com.br/musicograma/episodio/clara-nunes